

Mas temos um problema
O solo tem vindo a ser reduzido a um simples suporte físico-químico para cultivo, e é tratado agressivamente, sem se considerar a sua complexidade e o seu ciclo de vida, ou pensar sobre os riscos para a biodiversidade dos organismos que nele vivem. Até hoje, nada em concreto foi feito para enfrentar a perda de fertilidade causada pelo enorme aumento da produção agrícola e animal, bem como de outras indústrias.
É preocupante, porque a tendência é piorar. E por que razão?
Já somos 7,2 mil milhões de pessoas, um número que tende a aumentar, e traduzirá a necessidade de mais comida e uma maior demanda pelo consumo de carne… Isto vai provocar uma pressão na indústria agroalimentar para se produzir cada vez mais quantidade na mesma terra, o que implica, obviamente, o recurso a uma agricultura mais e mais intensiva, com adubos de síntese, pesticidas e herbicidas, com sementes de alto rendimento e monoculturas, o que irá causar desgaste e diminuição da fertilidade e riqueza do solo e, consequentemente, a produção de alimentos de baixa qualidade.
Senão, vejamos. As plantas para se desenvolverem e terem as características nutricionais que nos fazem bem, compreendem mais de 20 elementos químicos ( por exemplo os macro: oxigénio, carbono, hidrogénio, nitrogénio, fósforo, potássio, enxofre, cálcio, magnésio; e os micro: ferro, cobre, manganésio, sódio, zinco, cobalto, alumínio, selénio,…) na sua composição.
Os adubos de síntese, utilizados na agricultura convencional, contêm apenas 3 – azoto, potássio e fósforo. Dá para imaginar as deficiências que isto cria no solo, bem como nos alimentos que daí derivam e, se a isto adicionarmos os herbicidas e pesticidas…
Com o percurso que está a ser traçado, caminhamos para uma situação em que o homem assume fazer o papel do solo, fornecendo artificialmente tudo o que é necessário para que ele produza, ou seja, o papel do solo fica reduzido a substrato para manter as sementes.




O que quer isto dizer para o solo?
1. Que já não vai cumprir o seu papel vital;
2. Que não vai ser alimentado;
3. Que não vai ter a oportunidade para se equilibrar e regenerar por si próprio;
4. Que não vai conseguir fixar o carbono;
5. Que deixa de conseguir cumprir o seu papel na purificação da água;
6. Que afinal o solo vai estar fora da equação!
Mas perguntarão os mais cépticos: e isto importa?
Afinal, há que alimentar o mundo!
Considerando que há mais biomassa no subsolo que acima dele, se matamos o solo, vamos matar também um ecossistema, o que equivale a fazer desaparecer todas as coisas vivas que estão por cima do solo. O risco de um acontecimento destes soa-nos bastante assustador e nem conseguimos imaginar as consequências que terá! Por isso, é urgente mudar hábitos e práticas.
No fundo, é importante começarmos a pensar que vivemos num sistema em que tudo está interligado. Mal comparado, é como se a terra fosse um condomínio de apartamentos, em que, se o vizinho do 9º andar deixar a torneira aberta, mais tarde ou mais cedo, os efeitos vão-se sentir no rés-do-chão…
Não podemos estar continuamente a adiar uma factura que vamos ter de pagar.
Temos que tomar decisões e tomá-las já, pois todas as escolhas que fazemos no dia-a- dia vão, de alguma forma, ter impacto no solo e na água, seja pelos alimentos que escolhemos, pela roupa que vestimos, pelos produtos que usamos, tudo, tudo está directamente ligado ao solo e à água.
Então o que podemos fazer para manter os nossos solos férteis e produtivos para as próximas gerações?
É essencial educar o consumidor, dar-lhe informação, quanto mais informado o consumidor estiver, mais escolhas conscientes irá fazer.
A educação tem que começar cedo. Se vivemos desligados da terra como lhe podemos reconhecer o valor? Desde o ensino básico que se deveria promover o contacto das crianças com a terra, mostrar-lhes que se semearmos uma semente e cuidarmos dela, nascerá uma bela planta. A agricultura devia juntar-se ao estudo do meio ambiente e geografia, mas não só o estudo, também a prática.
Incentivar à preferência pela comida local e da estação. O consumidor tem de compreender a importância do que é comer o que é de origem do país e região, para manter a biodiversidade e maior variedade de culturas, e por ser mais sustentável. Não precisamos de comer fruta que viajou 3000km para chegar às nossas mãos.
Criar a preocupação no consumidor de saber como foi feita e o que contém a comida que está a comer. Ser exigente, obriga a indústria agroalimentar a mudar a sua atitude. Há que mostrar o impacto que os hábitos alimentares têm no meio ambiente. Todos temos que entender que agricultura, alimentação, nutrição e saúde representam um todo. Cuidar do que fazemos crescer, como cresce, o que contém e como comemos, tem uma influência inevitável na saúde pública e na saúde do Planeta.
Dizer não a sementes geneticamente modificadas e obrigar a indústria a identificar, de forma visível, se recorre ou não a OGM.
Como agricultores, temos que criar sistemas de produção que estejam em harmonia com o meio ambiente, e aderir aos métodos agrícolas que não causem danos, reduzindo o uso de adubos ou fertilizantes de síntese, optando por policulturas, rotação de culturas, adubos verdes, preferindo variedades locais e, sobretudo, apostando na verdadeira inovação, aquela em que usamos a nossa inteligência para modificar a natureza e poder utilizar os seus produtos sem a prejudicar e empobrecer. Temos que usar a terra para o que realmente necessitamos, pois, na verdade, 1/3 da comida que é produzida não acaba nas nossas mesas, é desperdiçada, e esse desperdício consumiu recursos importantes, como a água e o solo.
Hoje, os agricultores que praticam uma agricultura sustentável são uma minoria. No entanto, o facto de um número crescente de pessoas decidir escolher o que produz, mostra que começa a haver essa preocupação e consciência.
Se queremos manter os solos férteis, boa água e a natureza viva, temos que ter uma atitude colectiva de mudança.
Só nós, como consumidores, a conseguiremos provocar, pois a indústria só irá mudar se os consumidores o exigirem.
Assinem e façam parte deste movimento para salvar os solos:
https://www.people4soil.eu/en

